quinta-feira, 23 de junho de 2016

COMO SE FAZ UM HERÓI NACIONAL
 A história do menino Lula, migrante, posto em São Paulo, é idêntica à de milhares que fugiram da miséria nordestina, a grande obra do mandonismo dos velhos e dos novos coronéis, em busca do que era então a Terra Prometida . Começou a trabalhar, aos doze anos, em uma tinturaria. Durante o mesmo período também trabalhou como engraxate e auxiliar de escritório. Aos catorze começou a trabalhar nos Armazéns Gerais Colúmbia, onde teve a carteira de trabalho assinada pela primeira vez, permanecendo ali por seis meses. Com esta idade, se viu obrigado a deixar a escola e foi trabalhar em uma siderúrgica que produzia parafusos. Foi ali que, em 1964, em um torno mecânico esmagou seu dedo, tendo que esperar por horas até o dono da fábrica chegar e levá-lo ao médico, que optou por cortar o resto do dedo mínimo da mão esquerda. A mutilação lhe deixou alguns anos com complexo. Ficou 11 meses na empresa e, devido ao acidente, ganhou uma indenização de 350 mil cruzeiros, utilizado para comprar móveis para sua mãe e um terreno. A infância e juventude de extrema dificuldade não distinguem Lula de milhões de brasileiros. A sua história é exemplar, a partir do momento em que se torna a causa do ódio esquizofrênico que lhe dedicaram, depois de sua afirmação como o grande líder do povo brasileiro. Para as elites da casa grande, ela prova a sua própria incompetência e nega a elas a possibilidade de mandar "democraticamente"; para as classes médias, ela representa o risco de perda dos pequenos privilégios que se destinam aos fâmulos. O que importa de fato: essa história de vida é a incentivadora da política que Lula veio a executar, de combate à miséria, à pobreza, à fome. Lula aprendeu a respeitar a todos, com paciência muitas vezes confundida com complacência, mas jamais perdoou os que consentiram na fome do povo brasileiro. Em 1968, durante a ditadura militar, filiou-se ao Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Relutou em filiar-se e candidatar-se, pois à época tinha uma visão negativa do sindicato e seu grande hobby era jogar futebol. Um proletariado muito jovem, inexperiente de vida urbana, em grande parte formado por nordestinos vindos do mundo rural, resistiam aos sindicatos, mais facilmente aproximando-se das comunidades eclesiais de base. Convencido e sob influência de seu irmão José Ferreira da Silva - conhecido como Frei Chico, militante do Partido Comunista Brasileiro, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul, preso e torturado em 1964, Lula acabou por se integrar ao movimento sindical. Em 1972, foi eleito  1º secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Sua atuação na diretoria lhe deu rápida projeção, sendo logo depois eleito seu presidente em 1975. Ganhou fama nacional ao liderar a reivindicação em 1977 da reposição aos salários de índice de inflação de 1973. O primeiro retrato de Lula, traçado pela imprensa, teve Ruy Mesquita como autor, entusiasmado com um líder sindical que lhe pareceu apolítico, taxativo na sua afirmação: " Não concebo a ideia de os estudantes realizarem seu movimento dentro da classe operária. Os desejos não combinam, as ambições são outras, mesmo porque o estudante mantém o idealismo por quatro anos, depois passa a explorar a classe operária...No passado, fomos usados pelo PTB. Agora, os resultados de 74 e 76 não tornam o MDB o nosso partido”. Para o jornalista conservador , Lula enterrava em definitivo o "peleguismo", expressão do sindicato Varguista, segundo ele, ao mesmo tempo em que anunciaria o novo sindicato, livre de influências políticas,mas não "comunizante". Não havia então, e de fato, mesmo que longínqua, a ideia de um partido obreiro. O projeto de um partido que representasse os trabalhadores, voltado exclusivamente para eles, foi resultado de um processo de amadurecimento lento, surgindo só em 1980. Durante os anos da década de 1970, Lula empenhou o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo  numa luta muito bem definida: a luta pela "reposição salarial". 
 As grandes greves dos metalúrgicos, em 1978 e 1979, baseando-se na comprovação da justeza e necessidade da reposição salarial, criaram, além dos resultados que os operários obtiveram de imediato, uma situação radicalmente nova, correspondendo à decretação do fim da política trabalhista do autoritarismo, a da asfixia.
 As greves vitoriosas fizeram de Lula o grande político, o herói da Democracia. Em 1980, Lula liderou mais uma grande greve de trabalhadores. Após 17 dias de paralisações, ele foi levado para a prisão. A estupidez dos ditadores, insuflada pela vaidade de um civil corrupto, Murilo Macedo, Ministro do Trabalho, começava exatamente ela a identificar o Herói Nacional. O Partido dos Trabalhadores (1980) foi criado pela necessidade de representação política dos trabalhadores no Congresso Nacional, não foi o resultado de projeto personalista, alimentado por vaidades pessoais. O "obreirismo" que marcou os primeiros anos do novo partido não foi compreendido por intelectuais que tinham aderido a ele em momento inicial. E ainda hoje confundem-se as ideias e posições: Lula não pregou  a luta de classes, jamais assumiu uma compreensão marxista do mundo. Da luta pelos direitos dos trabalhadores, ele passou à guerra santa contra a miséria e a fome do povo. O seu "marxismo" é "práxis", aprendida na boleia de um pau-de-arara e depois na porta das fábricas, convocando todos à greve. A visão do jornalista Ruy Mesquita, de um Lula sindicalista apolítico, nasceu de sua vontade de que assim fosse, um sonho de um erudito que, não assumindo a visão elitista da família Mesquita, não reconhecia a necessidade de implosão do mundo da casa grande & senzala. A CUT - Central Única dos Trabalhadores (1983), reunindo 912 sindicatos, 134 entidades pré sindicais, 99 associações de funcionários públicos, 5 federações, 8 entidades nacionais e confederações, somando mais de 12 milhões de trabalhadores, nasceu para combater a ditadura; propunha o fim da Lei de Segurança Nacional e do regime militar, exigindo eleições diretas para presidente da República.
Só não há mais ditadura porque ela não é mais necessária, o que eles queriam já ganharam. Seu mandato foi plenamente justificado com um trabalho parlamentar sério:favorável à limitação do direito de propriedade privada, ao aborto, à jornada semanal de 40 horas, à soberania popular, ao voto aos 16 anos, à estatização do sistema financeiro, à criação de um fundo de apoio à reforma agrária e ao rompimento de relações diplomáticas com países que adotassem políticas de discriminação racial. Em 1998 Lula foi derrotado pela Rede Globo, que lhe roubou uma vitória delineada durante a campanha. Eleito em 2002 e reeleito em 2006, com mais de 60% dos votos válidos, depois de ter aprendido que o "Sapo barbudo" precisava ser substituído pelo "Lulinha paz e amor". Em 2002 o  que houve? Uma renúncia aos ideais que vinham lá de São Bernardo do Campo? Houve sim a negociação, o ceder, até mesmo em pontos onde não seria preciso, por ser muito caro o preço a pagar. Mas, oh! senhores, estamos a falar, não do típico político brasileiro, corrupto ativo e passivo, mas de um homem que executou o maior programa já visto no mundo, de combate à miséria e à fome. Reconhecido pelo povo brasileiro e mundialmente. Só isso? Não: tudo isso, o que os excluídos, social e politicamente, não esquecerão. E aí fica o desafio para as elites: não chegarão nunca mais ao Poder por meios democráticos, por consulta ao povo, que elas pretendem devolver às senzalas. Não bastasse essa obra histórica, Lula tratou de conquistar a dignidade nacional, afirmando a sua independência com uma política de Relações Internacionais focada na OMC, na formação de grupos de trabalho formados por países em desenvolvimento, bem como interações específicas com a União Europeia, melhorando a exposição do país internacionalmente. Essa forte atuação gerou resultados na ampliação do comércio brasileiro com diversos países e na consequente diminuição da dependência dos Estados Unidos e da União Europeia nas exportações brasileiras.
Serão apontadas suas falhas, seus erros e omissões. Mas não agora. Não se impute a ele uma traição, o abandono das esquerdas. Será sempre mais justo que se analisem e critiquem duramente a dogmatização e a burocratização de parte considerável de nossas esquerdas . No que fica a contribuição prestada até agora? Na crítica? O que construiram, afora equívocos, que se iniciaram em 1935 e foram se sucedendo? Não se deve aceitar a interpretação que os intelectuais acadêmicos emprestam ao vocábulo. Até porque, e de maneira muito clara, a inteligencia nacional é ela mesma, pois que nascida na casa grande, elitista e preconceituosa. Não aceita o pequeno nordestino importado na boleia de um caminhão, o operário acidentado, aquele que, sufocado por tantos e tantos diplomas honorários, os recebe com humildade, mas que continua a ser o homem que veio do mundo operário. O marxismo de Lula está na sua pele.

por MARIA FERNANDA ARRUDA

quinta-feira, 9 de junho de 2016

09\06\2016
AS OLIMPÍADAS DA DESINTEGRAÇÃO Mais de um século separam o Rio de Janeiro de Pereira Passos com o de Eduardo Paes. Esses dois momentos de profundas remodelações guardam entre si muitas semelhanças e poucas dissemelhanças: o que se realizou a partir de 1902 foi o saneamento e o embelezamento afrancesado da Capital de uma República nova: ruas foram alargadas, abriu-se a avenida do Mangue, Copacabana começava a ser urbanizada. Marcante mesmo foi a abertura da avenida Central, em 1904, para isso sendo demolidas 641 casas, expulsando-se os seus moradores pobres para os morros, algo como 4 mil pessoas, cortiços que foram substituídos por uma arquitetura afrancesada e abrindo espaços para que se construíssem o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Ao final da gestão Pereira Passos, em 1906, a cidade tinha cara-nova. E agora, com as Olimpíadas, o Rio de Janeiro de Eduardo Paes também terá uma cara nova? Os dois prefeitos poderiam encontrar-se naquela Avenida Central, hoje Rio Branco. A partir dos anos 1940, com o avanço da arquitetura do concreto armado, a avenida começou a descaracterizar-se arquitetonicamente, a tal ponto que, hoje em dia, apenas um punhado dos edifícios originais estão preservados. Ela ainda é, sem prejuízo disso, uma das artérias mais importantes da cidade, na qual se encontram alguns dos principais escritórios e bancos do Rio de Janeiro. Atualmente, por toda a sua extensão, andam mais de 500.000 pessoas ao dia advindas de todas as partes da cidade. Eduardo Paes poderia então apresentar a Pereira Passos o VLT, um projeto da prefeitura do Rio de Janeiro que integra as intervenções da Operação Urbana Porto Maravilha (nele se inclui também o admirável contra-senso a que se deu o nome ambicioso de "museu do futuro"). Pereira Passos não se preocupou com a expulsão policial dos negros, pouco antes alforriados pela Princesa Isabel, e nem com os imigrantes que não couberam nas casinholas das "colônias" das fazendas de café. Como Eduardo Paes não se preocupou com os milhares de desalojados, para que se abrissem espaços para as obras destinadas aos jogos olímpicos. As autoridades que administraram e que administram a cidade nunca a entenderam como "espaços do e para o povo". Há, entretanto e sem sombra de dúvida, diferenças muito expressivas entre esses dois momentos. Pereira Passos pretendia criar uma modernidade prestigiadora para as elites dirigentes, mostrando-as capazes de dinamismo no mundo dos negócios, ao mesmo tempo amantes da música, das letras e das belas artes. Eduardo Paes pretendeu criar e criou um mundo de negócios e negociatas. Segundo a sua fala, "A Olimpíada é transformadora", diz enquanto prefeito do Rio. Principal tocador das obras dos Jogos no País, o prefeito argumenta que do total movimentado (R$ 37,6 bilhões), 57% é recurso de Parceria Público Privada (PPP). "Dinheiro de governo é 43%", ressalta. A Matriz de Responsabilidade, que é tudo aquilo que não seria feito sem a Olimpíada, está orçada em R$ 6,5 bilhões. Basicamente estádios: R$ 632 milhões do município, R$ 1,654 bilhão federal e R$ 4,2 bilhões de recursos privados. O legado chega a R$ 24 bilhões. Eduardo Paes é o retrato do PMDB que domina o Rio de Janeiro e que fica simbolizado na figura patética de Jorge Picciani. Quando ingressou na política, pelas mãos do constituinte Marcelo Cerqueira, então no Partido Socialista Brasileiro (PSB), já era um produtor rural (mais recentemente, com as pedreiras adquiridas, habilitou-se como fornecedor da brita aplicada nas obras olímpicas). Elegeu-se pela primeira vez em 1990 e reelegeu-se deputado estadual quatro vezes. Presidiu a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro entre 2003 e 2010. Nas quatro vezes em que foi eleito presidente (as votações para a Mesa Diretora ocorrem a cada dois anos), concorreu sozinho à Presidência e teve praticamente a unanimidade dos votos. Na eleição de 2014, candidatou-se novamente para a ALERJ e foi eleito com 76.590 votos (nona maior votação no Estado do Rio e a terceira do PMDB/RJ).
Está na lista de proprietários suspeitos de utilizar trabalho escravo em suas fazendas. Como é sabido, o PT no Rio de Janeiro aceitou-se como partido menor e caudatário do PMDB. Sem prejuízo disso, Picciani apoiou claramente a candidatura de Aécio Neves, a quem fez questão de transformar em figura de destaque maior na cerimônia de seu casamento. Os Picciani, pai e filho, apoiam agora o golpe contra a presidenta Dilma, quem, em enorme equívoco, imaginou associar-se ao mais jovem, como caminho para o defenestramento de Eduardo Cunha. Enfim, e o que importa aqui, pode-se desenhar com coerência a pirâmide do Poder que prepara agora os jogos olímpicos: Michel Temer > Pezão > Eduardo Paes > Jorge Picciani > Arthur Nuzman. O desastre acontecido na Ciclovia Tim Maia, inaugurada em janeiro, é o símbolo da incompetência desonesta da do projeto notável. Mas, de longe ...muito longe, não é o mais escabroso. Imbatível é o escândalo de Deodoro: as obras foram iniciadas antes de assinado qualquer contrato, em inicio em junho, de 2014. Este só se deu dois meses depois, permitindo a prática de desmandos de todo tipo. Após apuração policial das irregularidades, foram encontradas
centenas de documentos falsificados, guias de transporte de resíduos jamais feitos. Em nota, o consórcio responsável pelas obras, formado pelas empresas Queiroz Galvão e OAS disse ter prestado esclarecimentos às autoridades competentes e a alteração de custos se deve ao material transportado não previsto no contrato. Com toda certeza, os escândalos de um grande trabalho de rapinagem, envolvendo as obras olímpicas, só começarão a aflorar depois dos jogos. De qualquer forma, dispensando-se cuidados e cautelas elementares. Os desastres só acontecerão depois e quando já não se puder associá-los ao banditismo de seus executores. Usemos as palavras proféticas de Chico Buarque: "Dormia a nossa Pátria tão distraída, sem perceber que era subtraí
da em tenebrosas transações". Hoje inexiste interesse em saber sobre isso. Sabe-se sobre o que é divulgado, e não será a Rede Globo a divulgadora desse mundo de negociatas. As tramoias de hoje referem-se à figura da Presidência da República, a que será a inauguradora das Olimpíadas da Desintegração. Quem será ela? A Presidenta eleita democraticamente? Ou o usurpador? E como ela irá se relacionar com o público que estiver no Maracanã? Como no momento temos a presença do usurpador golpista, ficamos livres por enquanto de manifestações, como as que foram promovidas contra a Presidenta de Direito: "não vai ter Copa do Mundo". Ninguém se dispõe a proclamar: "não vai ter Olimpíada". Elementar, não é mesmo? Seja quem for, o mais provável é que seja vaiado por um público que vive uma Pátria tão distraída, sem perceber nada de coisa alguma. Até o momento presente, o interesse do povo é menor. Alguém sabe que o "Símbolo Mascote" está escolhido? quem o escolheu? onde ele pode ser visto e conhecido? Somos novidadeiros, alcoviteiros, superficiais, frutos da deseducação que nos foi oferecida, desde os tempos já imemoriais de uma ditadura aviltadora da inteligência humana. A programação da Rede Globo, mal começa agora a promover a "motivação" de seus seguidores, animada por seus anunciantes, de fato e definitivamente os que fazem, promovem e lucram com os lazeres oferecidos aos que são os "quaisquer do povo", isso é, os consumidores. Quando se empenhou em ter os jogos olímpicos de 2016 no Brasil, Lula terá imaginado um Brasil alegre e confiante, não terá cogitado sobre um lenitivo, um momento de "curtição" alienante, fazendo deles um intervalo festivo, ao meio de sentimentos de medo e preocupação diante dos fantasmas do desemprego gerado pela crise econômica que alimenta o lucro do sistema financeiro. Os atletas que competiam em Olímpia participavam de uma homenagem aos deuses e à paz. Não usavam Adidas, apenas a felicidade de estarem nus e fazendo parte dos jogos. Não tinham patrocinadores, ganhavam coroas de louros. O ideal olímpico, renascido com uma nova era, foi se transformando com certeza, aviltado pelos interesses e negócios que se apossaram dele. Mantém-se vivo em alguns milhares de atletas que são animados pelo desejo de participar de uma Olimpíada, sabendo que nessa participação eles terão o prêmio que não será reconecido em nenhuma medalha. Em respeito a eles, que sejam então realizados os jogos olímpicos.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A MULHER TORTURADA 3\6\16
O golpe de Estado de 1964 foi montado cuidadosamente pelas elites civil e militar, envolvendo grande parte do povo brasileiro, e não só as classes médias, oferecendo-se a ele o manto protetor do anticomunismo mackartista, isso aconteceu e foi aceito em tal grau que a reação imediata no País foi a do silêncio dos mortos. A contestação demandou tempo para organizar-se mas surgiu e se fez, como resultado da coragem dos que enfrentaram a violência, tortura e o assassinato: a coragem dos que não se submeteram ao processo odiento da aniquilação de suas personalidades.
E, se os torturadores foram feitos definitivamente impunes, traço mais profundo da "democracia consentida" que nos foi doada, as vítimas estão identificadas, constando de várias listas, completadas com relatos e histórias. Entre elas há um número muito expressivo de mulheres, a então jovem Dilma Rousseff.
Em 1964, quem sabe pela primeira vez, homens e mulheres brasileiros anularam diferenças de sexo, fazendo-se iguais, enquanto guerrilheiros da Pátria. Quando aprisionados, voltavam as diferenciações: as mulheres eram submetidas ao ritual da tortura, mas adicionalmente foram humilhadas na sua sexualidade, submetidas à barbárie de animais machistas. O estupro será sempre um crime hediondo de tortura; em muitos casos, crime político hediondo. Entre as mulheres torturadas, Dilma Rousseff.
Estupradores podem ser os senhores de uma mulher aprisionada? Por que jovens bem vestidos e bem alimentados raptam uma menina de oito anos e a torturam, a estupram e a matam? Pelos mesmos motivos que conduziram trinta marginais a estuprar uma jovem e tornar público o seu ato criminoso. Sim, vivemos uma sociedade "machista".
Indignados com todos os motivos possíveis de serem alinhados, mal conceituamos o "machismo" e não pesquisamos as suas causas. Mas ele existe em todas as classes sociais, não é privilégio de marginalizados socialmente. A sociedade machista é puritana e hipócrita, ela condena o sexo e, muito mais, toma como sujo e indecente tudo o que a ele possa associar,começando pelo corpo humano.Não podendo eliminar o que é instinto, o que há de mais humano é metamorfoseado em imundície, a genitália feminina é posta como a mais desprezível: é quando o macho não procura a fêmea para satisfação sexual, mas para puni-la com a sujeira de seu esperma. Isso precisa ser muito lembrado e nunca esquecido, para que bem clara a inutilidade de leis e outras construções teóricas possam ser erigidas nos Palácios do Poder. Mais valeria a contribuição de mães, renunciando à representação do papel de Jocastas, recondicionando a coragem de assumir-se como fêmeas, perante seus filhos. Como regra de pequenas exceções, mães brasileiras não permitem que seus filhos a vejam assumindo vontade sexual.
O machismo é a distorção promovida pela sociedade religiosa marcada pelo estigma do pecado. A nudez das índias, duplamente descobertas, ao mesmo tempo assustou e atraiu o branco europeu, inclusive os jesuítas, como canta e conta Gregório de Matos, o poeta maldito. Na Bahia, a África brasileira,mulheres ostentam com orgulho sua condição de fêmeas, sacerdotisas de sua religião, Iemanjás de carnes,peitos e bundas de sereia. Para nós brasileiros, os brancos trouxeram o conceito de pecado e a sífilis. A violência nas relações sociais, desigualdades e injustiças foram agentes promotoras.À elas somam a estupidificação que a sociedade alienada e consumista promove. Na sua bestialidade imensa, o estupro é uma tara inerente q tal sociedade imbecil construiu. Não precisamos de leis mais severas, como se fossem poções mágicas. Que elas existam, enquanto praticados esses crimes hediondos. Os marginais que praticaram o estupro múltiplo de uma jovem de 16 anos serão identificados, presos, julgados e condenados (suavemente). Os acoitados pela ditadura que torturaram, violentaram e mataram uma menina de 8 anos ficaram sob a proteção do poder. Os que estupraram nos subterrâneos do DOI/CODI foram anistiados e puderam percorrer os corredores dos palácios da "democracia consentida." O machismo dos notáveis líderes políticos brasileiros hoje, passa por poucos comentários, ao ser desnudado na linguagem desabridamente grosseira dos diálogos gravados pelos "delatores premiados".
Voltemo ao princípio: a ditadura imposta em 1964. A experiência não se repete , pois de fato a História não comporta repetições. Em 2016 estamos experimentando o golpe de Estado envergonhado e vergonhoso, baseado em interesses pequenos de homens vis. Muitos brasileiros não aceitam a encenação armada por um circo mambembe, que se exibe com título e rótulo muito evidentes: "bye, bye, Brazil".Novela mentirosa e machista tentando deformar a respeitabilidade de uma mulher. Se, um dia, uma multidão optou por Barrabaz, hoje, um pequeno grupo de homens inocenta Eduardo Cunha e pede a vida de Dilma Rousseff que suportou a tortura, sem denunciar. Ela é mulher, e isso as figuras que povoam a política brasileira não perdoam: precisam estupra-la, exaltando as mulheres belas, recatadas e do lar.
O estupro não se pratica apenas contra a Presidente eleita por 54 milhões de brasileiros, mas contra todos eles, contra nós. O ministério Michel Temer pratica o estupro coletivo, composto por anões, ladrões, mentirosos, incompetentes, machistas,homofóbicos e criminosos. As mulheres estão nas ruas, enfrentando a violência dos policiais da Gestapo de São Paulo. São avós, mães, senadoras ,deputadas,blogueiras, fazendo ouvir suas vozes, defendendo a República e a Democracia(nomes femininos). Sempre com seu corpo, frente aos ideais políticos.
Hoje, não mais apenas um símbolo. Todos queremos que eles estejam no corpo e na alma de Dilma Rousseff, que somos todas nós.