quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

texto 08\01\2016

E O LULA FALOU ...
Convidado gentilmente pela Polícia Federal, Lula foi lá e prestou seu depoimento, na qualidade de testemunha. Tivesse sido intimado, por suspeito de prática de crime, a imprensa teria noticiado. Não foi esse o caso. O que ele disse lá? O que ele está nos dizendo? Necessariamente, foi um depoimento muito bem pensado, ouvidos atentos a várias falas e aconselhamentos. Por isso mesmo, houve prudência e muito caldo de galinha. Lula jamais soube de nada errado na Petrobrás, nem foram indicados seus os que mais adiante foram apanhados com a boca na botija. Tudo era encaminhado à Casa Civil e o Ministro responsável fazia e desfazia. Nada mais justo. Afinal, o companheiro Jose Dirceu não corre riscos: ele já está preso. O companheiro Lula não está preso; e nem quer ser preso. Já por aí, ele nada teve a ver e nunca com os nomes já enredados na Operação Lava Rápido e nem em quaisquer outras. O Presidente da República não se desgasta com problemas menores, como a gestão de uma empresa estatal, mesmo quando essa empresa seja a Petrobras. Vamos “fazer de conta” que sempre foi assim. Logo em suas primeiras palavras, Lula explicou tudo: na campanha de 2015, o PT associou-se a partidos com quem tem afinidades, com o PMDB, por exemplo. Os conchavos e trocas de favor nasceram espontânea e justificadamente disso. Excelente esse esclarecimento: jamais tínhamos suspeitado disso e, a partir de agora, atitudes que seriam tomadas por canalhas serão melhor compreendidas. Como, por exemplo, a aliança com os Picciani e a Máfia do Rio, ganhando-se quórum suficiente para arquivarem-se as tentativas indecentes de Eduardo Cunha contra a Presidenta, a companheira Dilma. Se essas primeiras palavras foram enganosas e enganadoras, estaremos aceitando que Lula, com arguto senso de conveniência, admitiu tacitamente que o companheiro Jose Dirceu não foi o grande anjo do mal, conduzindo o Partido dos Trabalhadores para a senda do crime, mesmo porque “caixa 2”, que ainda não era roubo, era apenas um ilícito menor, algo como uma contravenção que a sociedade sempre aceita, e que o digam os banqueiros do jogo do bicho. Quanto à Petrobrás especificamente, as afinidades criadas com os novos parceiros políticos implicaram em trocas de confianças e favores de cargos, jogos políticos, não negociatas. Se ocorreram não mais do que práticas habituais nos meios políticos, a Lula foi possível eximir-se de quaisquer responsabilidades, sem que, com isso, tenha abandonado o companheiro, apontando-o como responsável pelos malfeitos. Se não se praticaram crimes, responsabilidade de quem e no que? Restava apenas a dúvida nascida dos silêncios do PT, que optou sempre por identificar na ação condenatória do STF um ato político e não jurídico, dispensando-se da descrição exata dos fatos e acontecimentos. A postura aberrante do Supremo Tribunal foi sempre o melhor libelo de defesa. E se Lula disse a verdade? Pior ainda. Ao deixar nas mãos de um auxiliar os destinos de uma empresa decisiva para o futuro do País, foi irresponsável e incompetente, desqualificando-se para o exercício do cargo. Lula não se deu conta do que estava acontecendo? Não recebia relatórios, não tinha em mãos instrumentos mesmo que simplórios de auditoria? É verdade que os bandidos de Brasília têm as mãos perfumadas e os rostos embelezados pelos implantes capilares, cirurgias plásticas e enxertos. Mas ao Lula, por oito anos Presidente da República, e antes disso constituinte de 1986, falta competência para distinguir alhos de bugalhos? Ou ele também se fez temerário? Acordos que envolveram ajustes e acertos com as gentes de Michel Temer poderiam ter sido acompanhados à distância, ou mesmo desacompanhados? Lula foi convidado por duas vezes a depoimentos durante 2015. Prestou depoimento à Comissão da Verdade, numa pequena cerimônia que não mereceu atenção maior da imprensa. Não foi torturado, mas foi violentado na sua cidadania, principalmente numa prisão estúpida, e não só isso, pois que foi perseguido na sua ação como líder sindical, viu os companheiros espancados nas ruas de São Bernardo do Campo, ouviu o ruído dos motores dos helicópteros militares que acompanhavam com sua ameaça as assembleias na Vila Euclides. Diante dos que não estavam a julgá-lo, e nem o julgariam, que estavam a julgar a História do Terror, Lula assumiu atitude de menino inibido, sua postura física definia o seu incômodo assustado. Não só não viu, como não ouviu nada. Preso, foi muito bem tratado no DOPS por Romeu Tuma e não teve qualquer contato com Sérgio Fleury. Admitiu o cabimento da missão da Comissão, mas externou sua preocupação: para o Exército não é simples aceitar isso. Limitou-se a contar a história de vida do líder sindical não politizado, minimizando o mais possível quaisquer influências de Frei Chico, o irmão do Partido Comunista, preso e torturado pelos esbirros da ditadura. Em seu depoimento à Policia Federal não teve postura menos defensiva: não viu nada, não participou de nada, os outros faziam. Optou por fazer-se incompetente e ausente. O mesmo medo. O não querer comprometer-se. Foi coerente com a sua história: não veio ao povo, para prestar contas do “caixa 2”: quanto foi? Veio de quem? Foi gasto no que? Não se posicionou diante das condenações de Jose Dirceu e de Jose Genoíno. Não veio ao povo para dividir com ele os problemas e malfeitos em torno da Petrobrás. As contas de governo são contestadas, com má-fé evidente, ação de anjos de cara suja, ladrões de fama pública: mas onde estão as contas? Onde o governo participativo? Onde a seriedade no trato do dinheiro público, seriedade que houve, mas não está mostrada? Os procuradores do povo devem satisfações ao povo? Quando e onde? Lula pregava a necessidade de isso ser feito periodicamente, em praça pública, com os papeis na mão: paguei a quem e recebi de quem? Pretérito do passado perfeito. E ponto. Lula sempre mostrou a sua honestidade como resultado do que aprendeu com a Mãe analfabeta. Comove e convence. Mas, para convencermos a todos, companheiro Lula, precisamos, não de provas, mas de argumentos. Não basta o simplório “mamãe mandou eu não botar a mão no que não é meu”. A sua vida pública, Lula, logo mais completará meio século. Foi feita de muitos momentos, experiências, marchas e contramarchas. Da sua história, companheiro Lula, o povo não quer ter vergonha, quer ter orgulho, e um Líder não pode ser fraco, omisso e dúbio. Mas pode errar e erra: admita isso, Lula. Todos já estão a falar sobre 2018, pois que ninguém espera coisas maiores nos três anos que restam a Dilma Rousseff. Espera-se que sejam respeitados e cumpridos. Só. Mas, antes de qualquer outra coisa, companheiro Lula, volte a falar com o povo o diálogo de quem fala depois de ter ouvido, que esse é o papel de um líder. Aprenda a falar por último, olhos olhando os olhos. Não se ponha como figura messiânica, olhe as caras dos que o acompanharam e as dos que estarão dispostos a acompanhá-lo. Volte a afirmar o que já afirmou: não são os fins que justificam os meios. SÃO OS MEIOS QUE JUSTIFICAM OS FINS. Comece por nos contar dos seus grandes erros, para que possamos falar dos nossos, sem falsidades, sem arrogâncias, sem mentiras. A primeira página do termo de declarações prestadas por Luís Inácio Lula da Silva à Polícia Federal é confirmada pelas três que se seguem: NÃO FUI EU, EU NÃO SABIA. O LÌDER pode errar e erra. Não pode omitir e nem mentir.