quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

11\02\2016 TEXTO
Quarta-feira de cinzas: 
em algum lugar, velhas senhoras e suas mantilhas negras conduzem-se até à Igreja e a imposição das cinzas na testa, Perdão pelos pecados da carne que não coometeram, arrependimento pelo malfeito não feito? Início da Quaresma, tempo de provações, isso sim, todos nós sabemos e todos nós provaremos. Calendário e ritual que não guardam qualquer relação com o nosso Carnaval que, antes de ser um festival do sexo, é festa do povo, que pode subverter a ordem social que o sufoca. Chico Buarque de Holanda é o pintor exemplar desse cenário: um povo que anda às cegas, ignorantes das transações nebulosas dos detentores do poder, A eles é dado um momento de alegria fugaz. "Uma ofegante epidemia, que se chamava carnaval. Palmas para a ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar. A evolução da liberdade? a ilusão da liberdade? É a continuidade de uma tradição que em última instância é a revolta pagã, contra a ordem determinada pelos senhores do poder. Nas festas medievais, a festas dos loucos, elegia-se um "bispo", o "Papa dos Loucos". Os clérigos dançam e pulam durante o ofício da missa e cantam canções lascivas. Adotam trejeitos indecentes e recitam versos torpes. Esse festa, catarze de um povo explorado o ano inteiro, comemora-se nas ruas, com as fantasias improvisadas, com a música dos pandeiros e tamborins. A sua beleza é coletiva, não comporta destaques e alegorias. A sua realização máxima tomou a forma das escolas de samba, que no Rio de Janeiro se fizeram tradicionalmente nacionais, com as suas cores, seus compositores, seus sambas de enredo, suas comissões de frente, seus passistas exibicionistas de maravilhas. E assim,a Cidade tornou-se o símbolo do Carnaval, sepultando os "corsos" da avenida Paulista, que enfeitavam a sobriedade bandeirante entre confetes e serpentinas. A consagração definitiva foi projetada por Oscar Niemeyer e construída por Brizola e Darcy Ribeiro Mas o carnaval cada vez mais vem sendo apropriado pelos comerciantes famintos que descarregam milhares de "foliões de aluguél", ávidos do pitoresco e da aventura fácil, sugerida pela TV ,quais alimentarão hotéis, restaurantes, motéis, fabricantes, distrubuidores de bebidas, e principalmente os cofres das Prefeituras. Em passado recente da nossa História, contrapunham-se ao povo mascarado das ruas os bailes dos clubes de elite, o do Municipal no Rio, o mais famoso deles, além do Copacabana Palace, com suas fantasias de altíssimo luxo e péssimo gosto, um mundo que foi substituído pelas formas massificantes de produção de euforia. Também há o "carnaval turismo", aquele que é feito para quem pode pagar e paga. Não se trata da elite que sempre fez os seus bailes carnavalescos, É o turismo de massa, o que atraca nos portos de Salvador . Sufoca o carnaval do povo, rouba seus espaços, é promovido pela imprensa. E cada vez mais é explorado pelos políticos: da Presidência da República aos governadores e prefeitos. Vargas e Kubitschek apresentavam em traje a rigor nas frisas do Municipal, é bem verdade; mas Itamar Franco, envolvido pela modernidade e vestido esportivamente, compartilhou o camarote da Máfia do Bicho com a jovem que se mostrou sem os trajes íntimos. Ironia histórica, a "Passarela do Samba", na Marquês de Sapucaí, foi totalmente desvirtuada: seria um conjunto que abrigaria escolas para as crianças, oficinas e apoio às escolas de samba, dando-se vida e calor humano a ele pelo ano inteiro. Hoje, é um conjunto de camarotes especiais, contabilisando a fauna cultivada pela TV e "celebridades internacionais", convidados especiais anotados por lobistas, com aval dos capos da Máfia, discretamente presentes, bebendo, comendo, comendo-se, exibindo-se, ocasionalmente lançando olhos nos apanhados de telões. O "sambódromo" reune anualmente a fina-flor dos inúteis, dos homens e mulheres de negócios tão lucrativos quanto escusos, os que vendem os canais de acesso ao poder e às negociatas, tornando-se o reino da Máfia dos Bicheiros. De acordo com o que conta a própria LIESA - Liga Independente das Escolas de Samba, ela e a Prefeitura da Cidade (Riotur) são as responsáveis por tudo o que se refira ao grande espetáculo. Já foram seus presidentes Castor de Andrade e o Capitão Guimarães, mas hoje, modernizada e profissionalizada, ela é gerida por Jorge Luiz Castanheira Alexandre, sobre quem não existem condenações judiciais e nem suspeitas e nem críticas. As escolas, entretanto, voltaram nos anos mais recentes às mãos da máfia controladora: Rogério Andrade, o Anísio da Beija Flor, Luizinho Drummond, Hélio de Oliveira, Wilson Vieira Alves, o Moisés, condenado a 23 anos de prisão, mas libertado pelo STF, criatura do capitão Guimarães. Para esses homens, é um ótimo negócio, abre as portas para outros maiores, muitissimo maiores. A LIESA governa o carnaval oficial do Rio de Janeiro, em parceria com Eduardo Paes, camuflado pela Riotur, o prefeito que o PMDB trouxe do PSDB para os cariocas. Os senhores da Liga ganham prestígio e fama com as suas escolas de samba. Impõem sua regras como capos de uma famiglia sórdida, protegida pela Justiça do Supremo Tribunal Federal. Coragem só teve a juiza Denise Frossard. E ganham dinheiro. São os donos informais do Rio de Janeiro. O que ganha Eduardo Paes? Aceito pelos "capos", o Prefeito do Rio de Janeiro conta com a proteção deles e faz os seus negócios, não só políticos. Em Salvador, enquanto isso, o turista é transformado em "pipoca", o que pula e salta, correndo atrás dos trioelétricos, devidamente enfardado no abadá que comprou e pagou bem pago, e protegido de intruzos por cordas, sob vigilância dos "cordeiros". Em 2016, o prefeito ACM vendeu o carnaval oficial a uma marca de cerveja, proibindo o consumo de qualquer outra, numa expressão perfeita de seu elitismo que o DEM injeta nos seus líderes. Vale a pena o comentário mais alongado sobre o que acontece na cidade do Salvador, para que se contraponha ao que começa a ser feito em São Paulo. O prefeito Haddad abriu as ruas de São Paulo para o povo, que fizesse o seu carnaval, proibindo a imposição de abadás e eliminando as cordas segregadoras. Não se esqueçam as escolas de samba, os desfiles, os cacoetes copiados do Rio de Janeiro. Mas o que seria monopólio passa a ter concorrência de alguns milhões de paulistanos que puderam promover a sua "catarze" com liberdade de ir e vir e tomar a cerveja de sua preferência. Não se trata apenas do Carnaval, o que já seria de bom tamanho. Mas de uma política de respeito à cultura que o povo sabe fazer, o que, vale a pena lembrar, no plano da União, vem sendo feito com comptência pelo Ministro da Cultura, uma voz que clama no deserto de Brasília. E então: se adentramos pela Quaresma, tempo de meditações, que se pensem sobre dois temas: o da sordidez da política brasileira, que convive e é conivente com a Máfia do Rio de Janeiro; e o da necessidade de respeito e apoio à cultura popular.