quarta-feira, 2 de março de 2016

TEXTO  04\03\2016

UTOPIA QUE VAMOS CONSTRUIR BRASILIA tem sido associada com frequência sempre maior a SODOMA, aquela que se deixou marcar pela ganância, pelo apego ao poder, pelo despudor no uso do prazer, pelo desfibramento do caráter e da dignidade, alguns textos acusando os sodomitas de blasfemos e sanguinários. A expressão Sodoma e Gomorra se aplica à cinco cidades-estado no Vale do Sidim, que nos é descrito como um lugar paradisíaco, ocupando uma área aproximadamene circular no vale do Mar Morto. Brasilia ocupa também um espaço especial, destinado por notável conjuntura de astros, que Dom Bosco localizou e Juscelino Kubitschek abençoou. E o que se informa sobre ela? jornais, revistas, televisão, internet e os visinhos? Aquilo que se conta em detalhe: os que habitam o planalto central, responsáveis pela promoção do bem social de seu povo, embeberam-se no poder certificado por cargos e títulos e o brilho exultante de seus olhos só permite que se enxerguem a si mesmos. O butim arrecadado do povo vem sendo crescente e permite a satisfação da multidão de homens e mulheres que fazem uma minoria ínfima da população. Brasília compara-se a um Levitã, descrito pela Bíblia, o maior e mais poderoso dos monstros marinhos, aquele que ninguém ousará provocar e que, ao levantar-se, faz tremerem as águas do mar. Ou será o Leviatã imaginado por Thomas Hobbes, o retrato de um governo autoritário, encarnado no Estado centralizador, o Leviatã que decide tudo, o que ordena todas as decisões, sem respeito à lógica, ao bom-senso e à moral? O Leviatã da República de Brasília conta com o séquito de seus sacerdotes: figuras demais reconhecidas em seu despudor, uma relação longa e pesada, dispensável de ser lembrada. O que se reserva a eles: o inferno descrito por Dante, onde ardem os que se entregaram à luxúria, à gula, à agiotagem e à traição. São eles. E lá estarão eles: os que remuneraram as amantes com dinheiro público, que se saciaram nos banquetes e nos restaurantes exclusivos, os que somaram fortunas imensas ao praticar um motocontínuo de lesa-pátria. Especialmente: os traidores do povo. Os habitantes dos muitos palácios traem a si mesmos, confabulam e festejam os seus sucessos. Podem executar danças pornográficas, as feições embelezadas pelo petróleo negro da Xevron, da Shell, da Máfia. A luxúria de Sodoma foi queimada pelo fogo e demolida pelas espadas dos enviados de Jeová. Nâo há mal que sempre dure. Os pecadores de Brasília pagarão, apenas não se sabe ainda quando e como. E desde agora precisamos estar prontos para dias melhores, mais justos, mas equânimes e felizes. Em primeiro lugar, que nos afastemos das pestilências exaladas pelas vozes e pela letras, seja da Rede Globo, seja da Veja e dos jornais que se tornaram porta-vozes do sistema financeiro. Afinal, temos a nossas fontes de informação, jornalistas competentes, que devem ser lidos e convidam à reflexão: Mino Carta, Audálio Dantas, Palmério Dória, Luiz Nassif, lembrando-se apenas alguns nomes, que uma listagem mais extensiva seria sempre injusta para com dezenas de outros nomes. E ao lado deles vão se posicionando os blogueiros, que vão se organizando em torno de projetos, como os do "Barão de Itararé". Uma sugestão: nao percamos nosso tempo e não desgastemos nossa paciência. Por que não divulgar e apoiar o programa do Ministério da Cultura, totalmente ingnorado pelas elites, para desenvolvimento dos Pontos de Cultura, que estão permitindo a penetração em comunidades e territórios, privilegiando os segmentos sociais antes excluídos? Juca Ferreira está prosseguindo no trabalho que já vinha desenvolvendo com Gilberto Gil, abrindo espaços para a expressão e enriquecimento cultural do povo, um antíodo mais que eficiente, o que poderá eliminar a influência nociva da televisão comercial. Na medida em que o povo brasileiro seja libertado e possa expressar-se, com as suas palavras, podendo lutar por suas ideias, todos os vícios políticos, criados em torno das vontades dos senhores do Poder, serão eliminados: as campanhas políticas baseadas em mentiras e em desvios de dinheiro público, a multiplicação de partidos politicos vendilhõe do templo, as figuras que foram gestadas nos tempos da Ditadura e que continuam a ser mostradas, como marionetes a cada dia mais ridículos. O exercício democrático não se sustenta apenas com base nos que foram privilegiados e podem já hoje contestar coerentemente. Precisamos de fato respeitar um povo que está sendo solicitado a desaprender a pensar e falar. A própria Presidência da República, antes de ter sido encurralada de forma vil pelos que não podem fazer o exercício democrártico, já havia anunciado a necessidade de uma nova Constituição, realmente democrática, voltada para o futuro do País e suas necessidades. Essa é a proposta mais urgente. Mas não poderemos esquecer que uma Lei Nova só fará sentido na medida em que o povo possa se expressar e ser ouvido. Grande parte desse povo é constituído de jovens. Melhor do que acompanhar dia-a-dia os desmandos de Renan Calheiros e Eduardo Cunha não será apoiar a formação dessa juventude? Sabemos que uma qualidade lastimável de ensino tornou-se resppnsável por uma porcentagem inaceitável de analfabetos funcionais. E mesmo assim, quando foi necessário, houve uma juventude que ocupou as escolas e foi capaz de transformá-las em seu espaço. Tiveram o apoio de pais, de artistas, de intelectuais, de gente que sabe pensar. Não é esse o caminho? Nao fica a sugestão de criarmos espaços de convívio entre jovens e adultos, pensando sobre a escola, a cidade e o País? As REFORMAS DE BASE, peiteadas desde os primeiros anos de 1950, exigidas em 1964, depois esquecidas, precisam ser analisadas, sabidas, entendidas, deixando de ser apenas o apelo mais ou menos demagógico dos políticos profissionais. Esse é o pressuposto para que as ruas possam ser ocupadas, não com slogans não digeridos. Para que se exija uma reforma agrária, aí está o MST, com uma experiência magnífica, a ser ouvido. E junto com ele, todos os que estão preocupados com o uso abusivo de agrotóxicos e transgênicos. Não será mais razoável deixar de lado em alguns momentos a ação criminosa de Katia Abreu, para que se dê atenção aos que plantam e produzem de forma limpa e saudável?A essa gente somem-se os que estão lutando pelos índios e pelos camponeses que vão sendo trucidados. Os meios convencionais de informação estão e permanecerão calados. Como divulgar o crime, para poder exigir o castigo? Como divulgar o que está sendo bem feito? Quando a Ministra da Agricultura enfatiza a necessidade de incentivar a exportação de grãos, que argumentos somos capazes de propor em oposição a uma política que promove o retorno do Brasil à condição de Pátria exportadora de produtos agrícolas, que se completam com a venda de minério de ferro para a China, enquanto nossa indústria siderúrgica caminha para a falência? Se a compreensão desse mundo globalizado é difícil para a maioria de nós, o que imaginar quanto a um povo desinformado de tudo? Saber sobre isso não importa muito mais do que acompanhar malabarismos de um teatro de fantoches? O que pode nos animar? O povo brasileiro está se libertando de amarras que o prenderam à senzala. A vóz negra começa a ser ouvida. A vóz severa das mulheres está sendo ouvida. E o que nos compete fazer? Estarmos juntos dessa gente, fazendo com ela, e não nos deixando entorpecer pela risada macabra das hienas. Essas sim, que morram por fome e inanição.