sexta-feira, 3 de junho de 2016

A MULHER TORTURADA 3\6\16
O golpe de Estado de 1964 foi montado cuidadosamente pelas elites civil e militar, envolvendo grande parte do povo brasileiro, e não só as classes médias, oferecendo-se a ele o manto protetor do anticomunismo mackartista, isso aconteceu e foi aceito em tal grau que a reação imediata no País foi a do silêncio dos mortos. A contestação demandou tempo para organizar-se mas surgiu e se fez, como resultado da coragem dos que enfrentaram a violência, tortura e o assassinato: a coragem dos que não se submeteram ao processo odiento da aniquilação de suas personalidades.
E, se os torturadores foram feitos definitivamente impunes, traço mais profundo da "democracia consentida" que nos foi doada, as vítimas estão identificadas, constando de várias listas, completadas com relatos e histórias. Entre elas há um número muito expressivo de mulheres, a então jovem Dilma Rousseff.
Em 1964, quem sabe pela primeira vez, homens e mulheres brasileiros anularam diferenças de sexo, fazendo-se iguais, enquanto guerrilheiros da Pátria. Quando aprisionados, voltavam as diferenciações: as mulheres eram submetidas ao ritual da tortura, mas adicionalmente foram humilhadas na sua sexualidade, submetidas à barbárie de animais machistas. O estupro será sempre um crime hediondo de tortura; em muitos casos, crime político hediondo. Entre as mulheres torturadas, Dilma Rousseff.
Estupradores podem ser os senhores de uma mulher aprisionada? Por que jovens bem vestidos e bem alimentados raptam uma menina de oito anos e a torturam, a estupram e a matam? Pelos mesmos motivos que conduziram trinta marginais a estuprar uma jovem e tornar público o seu ato criminoso. Sim, vivemos uma sociedade "machista".
Indignados com todos os motivos possíveis de serem alinhados, mal conceituamos o "machismo" e não pesquisamos as suas causas. Mas ele existe em todas as classes sociais, não é privilégio de marginalizados socialmente. A sociedade machista é puritana e hipócrita, ela condena o sexo e, muito mais, toma como sujo e indecente tudo o que a ele possa associar,começando pelo corpo humano.Não podendo eliminar o que é instinto, o que há de mais humano é metamorfoseado em imundície, a genitália feminina é posta como a mais desprezível: é quando o macho não procura a fêmea para satisfação sexual, mas para puni-la com a sujeira de seu esperma. Isso precisa ser muito lembrado e nunca esquecido, para que bem clara a inutilidade de leis e outras construções teóricas possam ser erigidas nos Palácios do Poder. Mais valeria a contribuição de mães, renunciando à representação do papel de Jocastas, recondicionando a coragem de assumir-se como fêmeas, perante seus filhos. Como regra de pequenas exceções, mães brasileiras não permitem que seus filhos a vejam assumindo vontade sexual.
O machismo é a distorção promovida pela sociedade religiosa marcada pelo estigma do pecado. A nudez das índias, duplamente descobertas, ao mesmo tempo assustou e atraiu o branco europeu, inclusive os jesuítas, como canta e conta Gregório de Matos, o poeta maldito. Na Bahia, a África brasileira,mulheres ostentam com orgulho sua condição de fêmeas, sacerdotisas de sua religião, Iemanjás de carnes,peitos e bundas de sereia. Para nós brasileiros, os brancos trouxeram o conceito de pecado e a sífilis. A violência nas relações sociais, desigualdades e injustiças foram agentes promotoras.À elas somam a estupidificação que a sociedade alienada e consumista promove. Na sua bestialidade imensa, o estupro é uma tara inerente q tal sociedade imbecil construiu. Não precisamos de leis mais severas, como se fossem poções mágicas. Que elas existam, enquanto praticados esses crimes hediondos. Os marginais que praticaram o estupro múltiplo de uma jovem de 16 anos serão identificados, presos, julgados e condenados (suavemente). Os acoitados pela ditadura que torturaram, violentaram e mataram uma menina de 8 anos ficaram sob a proteção do poder. Os que estupraram nos subterrâneos do DOI/CODI foram anistiados e puderam percorrer os corredores dos palácios da "democracia consentida." O machismo dos notáveis líderes políticos brasileiros hoje, passa por poucos comentários, ao ser desnudado na linguagem desabridamente grosseira dos diálogos gravados pelos "delatores premiados".
Voltemo ao princípio: a ditadura imposta em 1964. A experiência não se repete , pois de fato a História não comporta repetições. Em 2016 estamos experimentando o golpe de Estado envergonhado e vergonhoso, baseado em interesses pequenos de homens vis. Muitos brasileiros não aceitam a encenação armada por um circo mambembe, que se exibe com título e rótulo muito evidentes: "bye, bye, Brazil".Novela mentirosa e machista tentando deformar a respeitabilidade de uma mulher. Se, um dia, uma multidão optou por Barrabaz, hoje, um pequeno grupo de homens inocenta Eduardo Cunha e pede a vida de Dilma Rousseff que suportou a tortura, sem denunciar. Ela é mulher, e isso as figuras que povoam a política brasileira não perdoam: precisam estupra-la, exaltando as mulheres belas, recatadas e do lar.
O estupro não se pratica apenas contra a Presidente eleita por 54 milhões de brasileiros, mas contra todos eles, contra nós. O ministério Michel Temer pratica o estupro coletivo, composto por anões, ladrões, mentirosos, incompetentes, machistas,homofóbicos e criminosos. As mulheres estão nas ruas, enfrentando a violência dos policiais da Gestapo de São Paulo. São avós, mães, senadoras ,deputadas,blogueiras, fazendo ouvir suas vozes, defendendo a República e a Democracia(nomes femininos). Sempre com seu corpo, frente aos ideais políticos.
Hoje, não mais apenas um símbolo. Todos queremos que eles estejam no corpo e na alma de Dilma Rousseff, que somos todas nós.