quinta-feira, 9 de junho de 2016

09\06\2016
AS OLIMPÍADAS DA DESINTEGRAÇÃO Mais de um século separam o Rio de Janeiro de Pereira Passos com o de Eduardo Paes. Esses dois momentos de profundas remodelações guardam entre si muitas semelhanças e poucas dissemelhanças: o que se realizou a partir de 1902 foi o saneamento e o embelezamento afrancesado da Capital de uma República nova: ruas foram alargadas, abriu-se a avenida do Mangue, Copacabana começava a ser urbanizada. Marcante mesmo foi a abertura da avenida Central, em 1904, para isso sendo demolidas 641 casas, expulsando-se os seus moradores pobres para os morros, algo como 4 mil pessoas, cortiços que foram substituídos por uma arquitetura afrancesada e abrindo espaços para que se construíssem o Teatro Municipal e a Biblioteca Nacional. Ao final da gestão Pereira Passos, em 1906, a cidade tinha cara-nova. E agora, com as Olimpíadas, o Rio de Janeiro de Eduardo Paes também terá uma cara nova? Os dois prefeitos poderiam encontrar-se naquela Avenida Central, hoje Rio Branco. A partir dos anos 1940, com o avanço da arquitetura do concreto armado, a avenida começou a descaracterizar-se arquitetonicamente, a tal ponto que, hoje em dia, apenas um punhado dos edifícios originais estão preservados. Ela ainda é, sem prejuízo disso, uma das artérias mais importantes da cidade, na qual se encontram alguns dos principais escritórios e bancos do Rio de Janeiro. Atualmente, por toda a sua extensão, andam mais de 500.000 pessoas ao dia advindas de todas as partes da cidade. Eduardo Paes poderia então apresentar a Pereira Passos o VLT, um projeto da prefeitura do Rio de Janeiro que integra as intervenções da Operação Urbana Porto Maravilha (nele se inclui também o admirável contra-senso a que se deu o nome ambicioso de "museu do futuro"). Pereira Passos não se preocupou com a expulsão policial dos negros, pouco antes alforriados pela Princesa Isabel, e nem com os imigrantes que não couberam nas casinholas das "colônias" das fazendas de café. Como Eduardo Paes não se preocupou com os milhares de desalojados, para que se abrissem espaços para as obras destinadas aos jogos olímpicos. As autoridades que administraram e que administram a cidade nunca a entenderam como "espaços do e para o povo". Há, entretanto e sem sombra de dúvida, diferenças muito expressivas entre esses dois momentos. Pereira Passos pretendia criar uma modernidade prestigiadora para as elites dirigentes, mostrando-as capazes de dinamismo no mundo dos negócios, ao mesmo tempo amantes da música, das letras e das belas artes. Eduardo Paes pretendeu criar e criou um mundo de negócios e negociatas. Segundo a sua fala, "A Olimpíada é transformadora", diz enquanto prefeito do Rio. Principal tocador das obras dos Jogos no País, o prefeito argumenta que do total movimentado (R$ 37,6 bilhões), 57% é recurso de Parceria Público Privada (PPP). "Dinheiro de governo é 43%", ressalta. A Matriz de Responsabilidade, que é tudo aquilo que não seria feito sem a Olimpíada, está orçada em R$ 6,5 bilhões. Basicamente estádios: R$ 632 milhões do município, R$ 1,654 bilhão federal e R$ 4,2 bilhões de recursos privados. O legado chega a R$ 24 bilhões. Eduardo Paes é o retrato do PMDB que domina o Rio de Janeiro e que fica simbolizado na figura patética de Jorge Picciani. Quando ingressou na política, pelas mãos do constituinte Marcelo Cerqueira, então no Partido Socialista Brasileiro (PSB), já era um produtor rural (mais recentemente, com as pedreiras adquiridas, habilitou-se como fornecedor da brita aplicada nas obras olímpicas). Elegeu-se pela primeira vez em 1990 e reelegeu-se deputado estadual quatro vezes. Presidiu a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro entre 2003 e 2010. Nas quatro vezes em que foi eleito presidente (as votações para a Mesa Diretora ocorrem a cada dois anos), concorreu sozinho à Presidência e teve praticamente a unanimidade dos votos. Na eleição de 2014, candidatou-se novamente para a ALERJ e foi eleito com 76.590 votos (nona maior votação no Estado do Rio e a terceira do PMDB/RJ).
Está na lista de proprietários suspeitos de utilizar trabalho escravo em suas fazendas. Como é sabido, o PT no Rio de Janeiro aceitou-se como partido menor e caudatário do PMDB. Sem prejuízo disso, Picciani apoiou claramente a candidatura de Aécio Neves, a quem fez questão de transformar em figura de destaque maior na cerimônia de seu casamento. Os Picciani, pai e filho, apoiam agora o golpe contra a presidenta Dilma, quem, em enorme equívoco, imaginou associar-se ao mais jovem, como caminho para o defenestramento de Eduardo Cunha. Enfim, e o que importa aqui, pode-se desenhar com coerência a pirâmide do Poder que prepara agora os jogos olímpicos: Michel Temer > Pezão > Eduardo Paes > Jorge Picciani > Arthur Nuzman. O desastre acontecido na Ciclovia Tim Maia, inaugurada em janeiro, é o símbolo da incompetência desonesta da do projeto notável. Mas, de longe ...muito longe, não é o mais escabroso. Imbatível é o escândalo de Deodoro: as obras foram iniciadas antes de assinado qualquer contrato, em inicio em junho, de 2014. Este só se deu dois meses depois, permitindo a prática de desmandos de todo tipo. Após apuração policial das irregularidades, foram encontradas
centenas de documentos falsificados, guias de transporte de resíduos jamais feitos. Em nota, o consórcio responsável pelas obras, formado pelas empresas Queiroz Galvão e OAS disse ter prestado esclarecimentos às autoridades competentes e a alteração de custos se deve ao material transportado não previsto no contrato. Com toda certeza, os escândalos de um grande trabalho de rapinagem, envolvendo as obras olímpicas, só começarão a aflorar depois dos jogos. De qualquer forma, dispensando-se cuidados e cautelas elementares. Os desastres só acontecerão depois e quando já não se puder associá-los ao banditismo de seus executores. Usemos as palavras proféticas de Chico Buarque: "Dormia a nossa Pátria tão distraída, sem perceber que era subtraí
da em tenebrosas transações". Hoje inexiste interesse em saber sobre isso. Sabe-se sobre o que é divulgado, e não será a Rede Globo a divulgadora desse mundo de negociatas. As tramoias de hoje referem-se à figura da Presidência da República, a que será a inauguradora das Olimpíadas da Desintegração. Quem será ela? A Presidenta eleita democraticamente? Ou o usurpador? E como ela irá se relacionar com o público que estiver no Maracanã? Como no momento temos a presença do usurpador golpista, ficamos livres por enquanto de manifestações, como as que foram promovidas contra a Presidenta de Direito: "não vai ter Copa do Mundo". Ninguém se dispõe a proclamar: "não vai ter Olimpíada". Elementar, não é mesmo? Seja quem for, o mais provável é que seja vaiado por um público que vive uma Pátria tão distraída, sem perceber nada de coisa alguma. Até o momento presente, o interesse do povo é menor. Alguém sabe que o "Símbolo Mascote" está escolhido? quem o escolheu? onde ele pode ser visto e conhecido? Somos novidadeiros, alcoviteiros, superficiais, frutos da deseducação que nos foi oferecida, desde os tempos já imemoriais de uma ditadura aviltadora da inteligência humana. A programação da Rede Globo, mal começa agora a promover a "motivação" de seus seguidores, animada por seus anunciantes, de fato e definitivamente os que fazem, promovem e lucram com os lazeres oferecidos aos que são os "quaisquer do povo", isso é, os consumidores. Quando se empenhou em ter os jogos olímpicos de 2016 no Brasil, Lula terá imaginado um Brasil alegre e confiante, não terá cogitado sobre um lenitivo, um momento de "curtição" alienante, fazendo deles um intervalo festivo, ao meio de sentimentos de medo e preocupação diante dos fantasmas do desemprego gerado pela crise econômica que alimenta o lucro do sistema financeiro. Os atletas que competiam em Olímpia participavam de uma homenagem aos deuses e à paz. Não usavam Adidas, apenas a felicidade de estarem nus e fazendo parte dos jogos. Não tinham patrocinadores, ganhavam coroas de louros. O ideal olímpico, renascido com uma nova era, foi se transformando com certeza, aviltado pelos interesses e negócios que se apossaram dele. Mantém-se vivo em alguns milhares de atletas que são animados pelo desejo de participar de uma Olimpíada, sabendo que nessa participação eles terão o prêmio que não será reconecido em nenhuma medalha. Em respeito a eles, que sejam então realizados os jogos olímpicos.