quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O ESCRITOR SEM LETRA
Pedro Corrêa do Lago: historiador e fotógrafo, possuidor de uma notável coleção de fotos
históricas. Dirigiu a Biblioteca Nacional, numa das gestões mais problemáticas da
Instituição. Colaborador da revista Piauí, com o blog “Questões Manscritas”.
Alejandro Zampra (1975): nasceu e vive no Chile, onde é professor universitário, crítico e
poeta. Autor de Bonsai e A vida privada das árvores
Alejandro Zampra, numa conferência de abertura de ano acadêmico, na Faculdade de
Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile, trata do escritor que não tem letra:
aquele que, por ausência completa de exercício, chega ao momento em que
desconhece a própria escrita.
Para os que usaram ou usam lápis ou caneta, papel e borracha, dando-se o prazer de
escrever à mão. Como fazem os escritores jovens que vivem um mundo em que as
palavras são transitórias, perecíveis, apagáveis ao toque de uma tecla: “delete”. Trata-
se sem dúvida de uma literatura onde se produzem textos, não livros.
Historicamente, o livro seria substituído primeiramente pela fotocópia, logo adiante
substituída pela cópia xerox, chegando-se finalmente à tela do computador, que pode
nos reproduzir textos, livros, coleções e bibliotecas. Não foi até hoje. O livro atrai na
forma pela qual se faz a sua busca e se realiza o seu encontro na prateleira de uma
livraria - livrarias ainda que organizam seus livros em prateleiras. Ele atrai
graficamente, oferece o prazer do contato com a sua textura e do olfato que o distingue,
novo ou antigo. Por muitos motivos, aqueles que identificam a legitimação do texto
com o papel que o imprime. Os que prosseguem comprando livros, lendo livros e
compondo bibliotecas. Os que ainda leem jornais e revistas. Os que ainda têm letra,
embora usem necessariamente o computador.
E, quanto à literatura? Quais as mudanças? Elas existem. mais facilidade no
escrever? Flaubert teria se demorado menos, usando dos recursos maravilhosos que o
computador oferece: procurar sinônimos, evitar cacofonias, copiar e colar, e, o que é
mais importante, ele eliminou um texto definitivo: qualquer frase ou mesmo uma página
podem ser apagados? um preço a pagar por tamanhas comodidades? Sim, embora
não nos demos conta dele. O teclado do computador, quem sabe por ação de que gênio
do mal, é quem determina um ritmo, uma velocidade. É um teclado que não prevê a
pausa. O teclado banaliza os sentimentos e torna as emoções fenômenos puramente
descritivos.
Ainda hoje em dia podemos identificar a letra de Carlos Drummond de Andrade, ou os
rabiscos de Oswald de Andrade. Até quando? O mesmo pode ser dito sobre os nomes
mais significativos no mundo político. E os autógrafos, resistirão? Até quando?