sábado, 4 de fevereiro de 2017

Convencidos de que em 1985 a Democracia nos fora devolvida, três anos depois fazendo-se a "Constituição Cidadã", caminhamos livres, sem lenço nem documento. O Presidente metalúrgico dava ao Brasil o otimismo dos que podiam comer e estudar. Caminhávamos distraídos, dispostos a não enxergar os sinais, prontos à satisfação daquele slogan: "nunca antes, na história desse País ..."    E, no entanto, novamente foi se compondo uma arquitetura muito bem planejada, organizada, composta e operada por homens de importância maior. Em 2005 foi criado o Instituto Millenium, propondo-se a disseminar uma visão de mundo baseada no liberalismo econômico (ou uma visão de "direita moderna"), contando com o apoio de importantes grupos empresariais e meios de comunicação de massa, buscando influenciar a sociedade brasileira através da divulgação das ideias de seus representantes, especialistas e colunistas. O que foi criado: um partido político, acima dos demais, sem qualquer respeito ao Estado de Direito e à Constituição. Reconhecido legalmente como instituição de interesse público, o Instituto Millenium tornou-se apto à "receber doações dedutíveis de Imposto de Renda de pessoas jurídicas de até 2%". Enquanto os que são reconhecidos formalmente como partidos políticos não podem mais receber doações de pessoas jurídicas, esse super-partido é sustentado por doações da Rede Globo, Grupo Abril, Grupo OESP, a ABERT, por grupos industriais, como Geerdau e Suzano.

O Millenium chegou para tentar sustentar teoricamente a luta dos que ainda defendem o neoliberalismo à brasileira. Não lembra o IPES e o IBAD por acaso. O Millenium acompanha uma tradição golpista existente no Brasil, uma tradição golpista da nossa velha mídia inclusive. Não aceita, não engole um governo que, pela via democrática, e com parâmetros distintos do neoliberalismo, está mudando o Brasil. E fará de tudo para derrotar esse projeto. Ele tem a orientação de homens, como: Alexandre Schwartsman, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Ives Gandra, João Roberto Marinho, Jorge Gerdau Johannpeter, Ricardo Diniz, entre vários outros. O gestor do Fundo Patrimonial é ninguém menos que Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, mas ao seu lado está Henrique Meirelles. 
Entre os "membros convidados": Ali Kamel, André Franco Montoro Filho, Carlos Alberto Di Franco, Carlos Alberto Sardenberg, Cláudia Costin, ,Eugênio Bucci, Demétrio Magnoli, Denis Rosenfield, Guilherme Fiuza, Gustavo Franco, José Padilha, José Roberto Guzzo, Mailson da Nóbrega, Marcos Cintra, Merval Pereira, Nelson Motta,Paulo Brossard, Pedro Malan. Especialistas colaboradores:Arnaldo Niskier, Bolivar Lamounier, Hélio Beltrão, Jose Neumanne Pino, José Álvaro Moisés, Leôncio Martins Rodrigues, Roberto Da Matta, Rodrigo Consrtantiino, Rolf Kuntz, Salomon Schwartzman.Com notória competência, o sistema financeiro e os empresários souberam agir de forma coordenada, assumindo o controle absoluto dos meios de coounicação, de pressão e de exercício do lobby. Controlam o Poder Executivo, o Congresso Nacional e o Poder Judiciário, assentados nas poltronas confortáveis do Supremo Tribunal Federal. Manipulam o Tribunal Superior Eleitoral, com a figura lastimável de Gilmar Mendes e transformaram o Tribunal de Contas da União em câmara de uma Santa Inquisição.

A tentativa de regulação da mídia, quando foi feita, foi tímida e reservosa. Não se discute conteúdo. O que se discute então? Agora, quem sabe, o tamanho do fracasso do PT. O poder de fogo concentrado pelo Instituto Millenium foi, hoje se constata, um desperdício. Poderia ter sido menor, diante da fraqueza tíbia, acovardada, de um Poder Executivo que se desejava derrubar, e que não demonstrou competência e nem mesmo vontade de sustentar-se. Culpemos os outros, os que impediram Dilma Rousseff de governar: eles tiveram vontade e competência para cometer  crime. E uma última observação: derrotado o  PT, não foram as "esquerdas" as derrotadas. Nem Lula e nem o PT jamais foram forças de esquerda. Hoje, exatamente o que se precisa é de um partido político que assuma um projeto, que mantenha atualizado um programa, que saiba que o poder emana do povo e que é com esse povo que se deve obrigatoriamente dialogar, isso é, falar e ouvir.
PANEGÍRICO DE MARISA LETÍCIA E VERGONHA DOS SEUS DETRATORES Eles não são muitos, nem têm muito dinheiro, mas aos que sim têm dinheiro interessa que pareçam muitos, de modo que estão por toda parte: você liga a TV e eles logo aparecem aos borbotões, no rádio só eles falam, os jornais estampam fotos deles nas páginas ímpares acima da dobra e deixam o mundo nas pares, lá embaixo. Têm, portanto, aquele dom da ubiquidade movida a dinheiro e mentiras, e se acham especiais por serem alvo de tantas atenções de todas as "pessoas de bem", atenções que imaginam devidas a algum tipo de identidade mútua, algum tipo de reconhecimento por serem vassalos tão leais aos senhores, por vigiarem zelosamente a conduta dos demais vassalos e apontar o dedo para os que não se conformam. Quando em bando, são estridentes, histriônicos e histéricos: pertencem àquela categoria de pessoas que precisa reafirmar sem cessar a sua pertenência ao grupo, e que o faz exacerbando as condutas que julga próprias do seu grupo. Esse tipo de gente se encontra em todas as classes sociais; a diferença é que, no caso, *todos* os que são assim se juntaram no mesmo grupo e, não tendo parâmetros externos para balizar-se e açulados pelo coro unânime dos porta-vozes da miséria, vão ficando cada vez mais assim, e passam a ser facilmente reconhecíveis em qualquer situação, mesmo quando estão sozinhos: são aqueles neófitos entusiasmados que a toda parte levam a má nova do "governo mais corrupto da história"; são os que tratam balconistas e porteiros com desdém e arrogância mas vivem cheios de rapapés e adulações para aqueles de quem pensam poder obter alguma vantagem; aqueles que, quando a farinha é pouca, querem o pirão deles primeiro, os que protestam contra as leis de trânsito, que furam fila, que se revoltam quando quem antes viajava de ônibus passa a viajar com eles nas latas de sardinha voadoras que criam ser um privilégio que os separava da pobreza; são os médicos que se negam a trabalhar fora das grandes cidades e dos potenciais clientes ricos para as suas práticas privadas e se indignam quando alguém se dispõe a fazer isso, ou que colaboram com a PM no extermínio da população preta e pobre. São todos aquees funcionários públicos que batem o ponto e saem para cuidar dos seus negócios privados, ganhando sem trabalhar. São aqueles ignorantes profundos que acreditam ser herdeiros diretos do Maquiavel na sabedoria política porque repetem dois ou três truísmos sobre o tema único da "corrupção"; são os que acreditam piamente que no tempo da ditadura militar não havia corrupção porque ela não aparecia nas páginas dos jornais que apoiavam o regime. São racistas, preconceituosos, desonestos e oportunistas que morrem de pavor diante da possibilidade de um direito alheio ser um ataque às migalhas que consideram como seu privilégio exclusivo, marca da gratidão dos senhores pelos seus bons serviços. São gente capaz de ir fazer um buzinaço na porta de um hospital para comemorar a morte iminente de uma paciente. Um dos alvos favoritos do ódio dessa corja sempre foi a cidadã Marisa Letícia, companheira do cidadão Lula. Nela, viam todas as qualidades humanas a que não têm acesso por sequer imaginarem que possam ser qualidades. A alegria de viver, a generosidade, a dignidade, a humildade, a ausência de deslumbramento com os atavios e badulaques do poder, a discreção e a firmeza, marcas características da cidadã Marisa, são para eles jequices incompatíveis com o "cargo" de esposa de um presidente da república, em quem esperam ver as roupas e joias caras que aspiram para si mesmos algum dia, e de quem esperam que dedique o seu tempo coordenando ações de "caridade" para os "menos favorecidos" — sim, porque esses néscios se julgam "favorecidos". Para eles, a cidadã Marisa Letícia é a encarnação dos seus terrores mais negros, é a pobre que não conhece o seu lugar, a impostora que ocupa indevidamente o lugar de uma primeira-dama, a mulher autônoma e livre que se recusa a fazer o papel de figurante passiva no espetáculo do poder e vive longe das câmeras, cuida da horta do palácio presidencial, organiza festas juninas para a família e os amigos, fala palavrão e ri com prazer, é naturalmente solidária e generosa sem fazer disso alarde, com a discreção necessária para que a solidariedade e a generosidade não sejam peça de marketing político. A cidadã Marisa Letícia, para horror e vergonha dos seus detratores, não se aproveitou das "oportunidades" do poder para virar a dondoca que eles queriam ver no lugar dela, alguém que, pela pose perfeitamente adequada à posição, mostrasse ao populacho que aquelas alturas têm dono, que não são para eles, e que é melhor eles se conformarem em vez de tentar assaltar o céu. A cidadã Marisa Letícia é uma ameaça, um mau exemplo, e precisa ser diminuída, menosprezada, alvo de chacotas e insultos; precisa ser destruída, tanto ou até mais que o próprio Lula, porque, mais que ele, recusando-se ao papel de modelo negativo, algo que se admira e se venera mas é impossível emular, tornou-se um modelo positivo, que não se imita nem se segue porque já faz parte da vida diária da imensa maioria das mulheres — e dos homens — do país, é a prova viva de que o governo não é o condomínio fechado de doutores e madames, e de que o poder só corrompe quem quer ser corrompido. Então, vamos lá fazer um buzinaço debaixo da janela daquela [preencher com o epíteto racista/sexista favorito] pra ver se ela se apressa em ir abraçar o capeta. A cidadã Marisa Letícia, dona Marisa, a Galega, morreu ontem isolada dos seus iguais pelo muro de ódio acéfalo deliberadamente erguido em torno dela e da família que ela amou, forjou e protegeu com garra e generosidade contra o cerco de entrevados que os rodeava. Vai viver agora naquela única eternidade que realmente importa, morando para sempre no coração dos justos que ainda são a imensa maioria dos brasileiros, os que sabem que são pobres e vão aos poucos sabendo por que o são. Aos seus detratores, os pobres que se acham ricos e só sabem do mundo o que lhes contam os seus donos, restará a vergonha e o opróbio. Nós, os que somos todos dona Marisa, vamos rir por último. c