sexta-feira, 24 de março de 2017

Argentina, golpes militares, ditaduras cívico-militares e

democracia

O golpe de Uriburu contra o governo popular de Hipólito Yrigoyen em

1930 inaugurou uma época de intervenções armadas do que se deu em

chamar na Argentina, de partido militar. Repetiram a dose contra o

governo constitucional de Juan Perón em 1955, atacando todas as

conquistas populares obtidas no período. E outra vez em 1962 contra o

desenvolvimentista – aliado ao peronismo proibido e perseguido – Arturo

Frondizi.

Mas o golpe de Onganía em 1966 contra o governo eleito – ainda com o

peronismo, majoritário, banido – de Arturo Illía foi o que marcou uma

virada nos processos. Até então, as ditaduras tinham como objetivo

manter a velha oligarquia rural, aliada aos industriais e seus sócios no

exterior no poder, e evitar ou minimizar as greves e a organização sindical.

Em 1930 o inimigo era o anarquismo e o socialismo; em 1955 o

peronismo; em 1966 os sindicatos peronistas, a intelectualidade e os

estudantes.

Foi só em 1969, quando o movimento operário e popular estourou nas

ruas com o Cordobazo de 29 de maio, é que o partido militar notou que o

inimigo interno – em plena guerra fria, o comunismo lá fora e o peronismo

combativo dentro – tinha começado a crescer nos sindicatos, e na forma

de grupos estudantis rebeldes e de pequenas células guerrilheiras que

pipocavam pelo país ao calor das “puebladas”; não houve capital ou

cidade grande argentina que nos anos de 1960 e 70 até 73 não

experimentasse as insurreições populares por diversos motivos, mas

sempre nascendo a partir de reivindicações salariais e se estendendo à

luta pela liberdade dos já numerosos presos políticos e pelas demandas

mais básicas da democracia ausente e negada.

Um pacto entre o banido líder peronista e o ditador militar Lanusse, o

Gran Acuerdo Nacional, permitiu eleições livres em 1973 onde o único

proibido foi Perón. Mas seu delegado pessoal, Cámpora, ganhou a eleição
pela força da Juventud Peronista, braço legal de massas da organização

armada Montoneros. Junto com guerrilha peronista e o PRT-ERP,

expressão marxista armada, cresceram no seio da vanguarda sindical e

estudantil e enfrentaram a ala direita do peronismo. O ministro López

Rega, secretário pessoal de Perón, e Isabel Perón encabeçaram a reação

da direita, apoiados pelo velho líder, lançando as bandas fascistas

conhecidas como Três A que cometeram mais de 1000 crimes contra a

vida de intelectuais, dirigentes políticos e sindicais da oposição de

esquerda, e forçaram ao exílio a numerosos políticos moderados,

professores universitários, artistas e cientistas. Os métodos das Três A, de

desaparição, tortura e morte, foram apenas a antessala do que viria com o

golpe de 24 de março de 2016.

No meio desta sucessão de golpes e “pronunciamentos” militares, sempre

financiados e apoiados, aberta ou sorrateiramente pelos políticos e

empresários da velha oligarquia, a democracia foi crescendo como uma

aspiração a conquistar de modo definitivo. Passamos da “democracia

vigiada” – que sofreu o governo Alfonsín em 1983, logo do fracasso da

guerra das Malvinas e a derrota política do governo ante a forte pressão

social e dos políticos mais radicalizados – até o momento atual, em que os

direitos podem estar sendo recortados, e as conquistas sociais ameaçadas,

mas as liberdades de expressão continuam protegidas pela força e a

consciência de uma parte importante da população que não aceita voltar

atrás.

Maria Fernanda Arruda, escritora e midiativista.